sábado , 18 de novembro de 2017
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Conto: A Dança do Troca Dedo

Um leitor do Panorama Araiosense nos enviou alguns contos e nos pediu que publicássemos no site.
Resolvemos investir nisso! Faremos algumas postagens aqui no Panorama reproduzindo as obras literárias de nosso leitor! Veja agora mais um conto- A Dança do Troca Dedo
Atenção: O conteúdo abaixo é de total responsabilidade do autor da obra.

   Gumercindo, seu velho incherido, para de ficar enchendo a cabeça desse menino com essas mentiradas!
    Dona Ermengarda não gostava que seu velho ficasse contando seus causos, quanto mais ela pegava no pé dele, mais ele tinha vontade de contar e mais eu tinha vontade de escutar. Suas histórias preferidas eram sobre o cangaço.Lampião e Maria Bonita era pra ele o mesmo que Romeu e Julieta, Bonnie e Clyde, ou Shrek e Fiona, o Corisco, ele dizia que era primo do tio de um amigo dele.
      Ele falava que um seu tio avô,também era cangaceiro, valente feito um lagarto teiu, mais bravo que uma cascavel, ligeiro igual uma lebre, o homem tinha parte com o demônio, chuva de bala de macaco nenhum te acertava, ele deve de estar vivo até hoje lá pelos lados do vale de Jequitinhonha.
       Lá do tanque, dona Ermê gritava ,….deixa de ser besta, homem, você tinha parente no cangaço nada, os homens da sua família são todos uns frouxos.
       Uma vez, seu Gumercindo contou um caso de um menino lá da sua terra, Mandacaru do Leste, lá no sertão do Sergipe, disse que o traquinas não gostava de estudar, muito menos trabalhar, quando alguém lhe perguntava o que ele ia ser quando crescesse, ele só falava assim …não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.
       Um sábado a tarde, o pestinha falou pra mãe que estava indo num baile lá no arraial do jegue manco, só não tinha hora pra voltar….como é que tu vai voltar de noitão,indagou a mãe, ele só disse …não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe.
    Lá pelas tantas, chegou no baile, um mundaréu de homens vestidos com roupas de couro e armados até os dentes. A sanfona calou, o pandeiro se aquietou, só o candieiro ficou aceso, iluminando as caras amedrontadas dos dançantes. Era Lampião e seu bando.
       Que porcaria de baile é esse que só tem homem? parece que tem dez machos pra cada dama? já foi gritando Lampião com a peixeira na mão……vocês ai mulherada, vão todas embora e os homens, todo mundo pelado, dançando juntinho de rosto colado,  você ai da sanfona, toca uma música lenta e quem ficar de falo duro, eu corto(queria ver endurecer) e não quero ver beijação.
        Depois de algumas danças, o rei do cangaço descobriu o moleque escondido atras de umas cadeiras, ….tá escondido porquê, seu pirralho?…..é porquê eu não sei dançar.
        Você está com quem, seu menino?….tô só…..você sabe quem sou eu?….não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe.
      Eu sou Lampião, seu moleque atrevido, boca mole, agora tire sua roupa se não quiser levar umas chibatadas.
      O senhor vai me comer ,seu Lampião? deixa de bestagem, não sou homem pra isso não, só vou te ensinar como se dança, rasga o fole sanfoneiro.
     Agora tu enfia o dedo maior da sua mão direita na boca e o da mão esquerda no fiofó, agora dança,  vai dançando,  dançando, agora troca, a mão esquerda na boca, a direita no fiofó e continua dançando não para não.
         E assim foi umas quatro ou cinco músicas, o pirralho sozinho e peladinho dando voltas no salão dançando e trocando o dedo, trocando o dedo e dançando, até que o cangaceiro satisfeito foi embora.
     Então eu perguntei pro seu Gumercindo, como é que o menino conseguiu encarar as pessoas do vilarejo depois do acontecido.
      Seu Gumercindo então falou, ….não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe.

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Autor:
Valdir Fachini 
Compositor, Escritor, Cabeleireiro
Natural de Votuporanga 
Residente em Campinas 

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Sobre Jonatan Aguiar

Jonatan Aguiar
Nascido em Praia Grande-SP, moro em Araioses desde 2002. Sou repórter e Diretor Geral do Portal Panorama.

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