LECTIONES VITAE

E aí um dia muitos passam a pensar que viver quase um século pode não ser o suficiente para realizar todas as suas ambições, os seus mais profundos desejos. O jeito é fazer com que esse tempo valha a pena limitando as suas loucuras ou morrer na esperança de que algo a mais virá depois que o passado se tornar pó em algum túmulo esquecido, afinal, Mors omnia solvit (a morte desfaz todas as coisas).

Mas ainda há aqueles loucos que não aceitam seguir tal ideia e sabem viver e sorrir, mesmo envoltos de todas as crueldades existentes que o nosso mundo possui. Estes aprendem que o tempo e a vida são grandes mestres: o tempo ensina a valorizar a vida, pois viver é aproveitar os momentos, já a vida ensina a valorizar o tempo, pois este escorrega pelas nossas mãos feito água. Essas são as leis de nossa existência, no entanto, há de se lembrar: lex non est textus sed contextus (a lei não é texto, a lei é contexto).

Esses loucos são impulsionados por uma vontade incessante de que tudo tem de valer a pena, de que, no fim dos tempos, tenham uma boa história para contar, de que suas escolhas, algumas, embora sejam erradas, os fizeram ser quem são, os fizeram aprender, conhecer, desvendar novos mistérios a respeito de si mesmos e também do mundo. Sabem que electa una via non datur regressus ad alteram (Escolhido um caminho não pode regressar para outro). Então que seja o melhor dos caminhos, não um de flores, por ser, apesar de belo, fácil demais, mas sim um de espinhos, por ser difícil e produtivo.

A verdade é que somos as nossas cicatrizes, as quedas, as falhas. Elas marcam as nossas almas e nos oferecem experiências inesquecíveis e com elas um aprendizado fundamental. Há de se reconhecer que o difícil está em encontrar o fácil, depois disso é só prosseguir, se não conseguir encontrar o fácil em cada situação, sempre viverá o difícil. Ao existir, firmamos um contrato etéreo com nós mesmos, de sempre buscar as melhorias, a resiliência, as qualificações, a alegria. Dessa forma, reconhece-se uma obrigação, pois omini vero obligatio vel ex contractu nascitur  (a obrigação nasce do contrato). Mas como nemo ad impossibile tenetur (ninguém é obrigado a fazer o impossível), cada um tem seu próprio tempo. Ainda haverá quem não conseguirá escalar a montanha que deseja, que persistirá na ilusão de um caminho errôneo, talvez impulsionado por sua própria mente, ou sendo vítima de sua própria omissão ao deixar com que os outros escolham seu caminho por si.

Vale comentar que esse é um dos maiores pecados que se pode ter em vida: ser uma pessoa que não exerce a sua própria vontade e ficam a mercê dos outros, abre mão do poder de agir por si e entrega em vida o seu poder pessoal. Memo ad faciendum cogi potest (ninguém pode ser coagido a fazer algo). Para pessoas assim, só o tempo e a vida poderá ensinar que cabe a elas possuir o poder da escolha, que é dever delas exercer a sua vontade como um indivíduo consciente de si. Portanto, saiba que você conviverá com pessoas que ainda não tem o conhecimento para agirem diferente e caberá a você compreendê-las e aceitá-las como são, só assim, a paz brotará em seu coração. É necessário ter calma, pois para tudo há o seu devido tempo e cada um tem o seu próprio desenvolvimento, per fas et nefas (por bem ou por mal). Os erros, de fato, não podem ser aceitos, mas devem ser compreendidos para que os evite no futuro, a justiça sempre deve imperar, o equilíbrio, apesar de utópico, sempre deverá ser buscado, posto que fiat iustitia, pereat mundus (haja justiça, mesmo que o mundo pereça), para que vivamos o certo. Vivemos em um mundo onde o errado se tornou normal e o certo, algo raro. Mas que referente tomar para saber o que é o certo ou o errado? Simples, a harmonia e a felicidade das pessoas. Odiosa restringenda, benigna amplianda (o odioso deve ser restringido, e o bem ampliado).

Se há tristeza, caos, conflito, há o errado, se há paz, alegria, consonância, há o certo. Uma vez que o importante é o estado de espírito dos indivíduos. E para chegar a uma paz geral de espírito, é necessário controle, regras, leis, para si mesmo, na organização de seu mundo interno, como para os outros, na organização do mundo externo, já que nemo iudex in causa própria (ninguém é juiz de causa própria).

Por Marco Antonio Ramos de Aquino, acadêmico de Direito, altruísta e filósofo nas horas vagas

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