Sempre tivemos uma queda pelos aparelhos da Motorola aqui na redação. É aquela mistura muito específica de um software Android mais limpo e fluido, quase puro, com um design que vira e mexe ousa sair da mesmice. Para entender o peso do que temos nas mãos hoje, vale a pena dar um passo atrás e lembrar de onde viemos, puxando da memória o Motorola One Fusion Plus, lançado no segundo semestre de 2020. Naquela época, o conceito de um intermediário era bem mais rústico. Era um aparelho massivo, pesando 210 gramas e beirando 1 centímetro de espessura, feito de plástico. A proposta era entregar o arroz com feijão: rodava o Android 10 empurrado por um chip Snapdragon 730 (aquele conjunto Kryo de oito núcleos) e parcos 4 GB de RAM. A tela IPS LCD de 6.5 polegadas com resolução Full HD e taxa de atualização padrão resolvia a vida, mas definitivamente não fazia brilhar os olhos de quem consumia mídia.
Uma coisa que a Motorola já acertava em cheio lá em 2020 era a bateria de respeito. O Fusion Plus trazia um tanque de 5000 mAh que aguentava o tranco de qualquer usuário intenso. A conectividade era o que dava pra época: Wi-Fi ac, porta USB-C 2.0, e a ausência sentida de um chip NFC. O armazenamento batia no teto dos 128 GB — o que a gente achava que era bastante — podendo expandir via microSD. Na traseira, a marca embarcava na moda de atirar para todo lado com quatro lentes, lideradas por um sensor de 64 MP (f/1.8), amparado por lentes de 8 MP, 5 MP e 2 MP que, na prática, mais faziam número do que entregavam qualidade real, embora a gravação em 4K a 30fps já fosse uma funcionalidade bacana.
Corta para o presente com a chegada do Motorola Razr 70 Ultra. A nova série 70 pousou na nossa mesa como um choque de realidade sobre o quanto a tecnologia mobile escalou — e de como o custo dos componentes infelizmente acompanhou essa viagem até a estratosfera. O preço é salgado, o que nos faz questionar se o investimento se justifica na ponta do lápis. Mas deixando o bolso de lado, o aparelho entrega um hardware que é puro suco de topo de linha. O cérebro por trás da operação agora é um SoC Snapdragon 8 Elite, trabalhando junto com cavalares 16 GB de RAM LPDDR5X e 512 GB de armazenamento UFS 4.0 ultra-rápido. E pasmem: eles conseguiram manter os mesmos 5000 mAh de bateria do antigo trambolho num corpo dobrável de 199 gramas, mas agora com carregamento insano de 68W com fio, 30W sem fio e até um troco de 5W na recarga reversa.
O salto geracional bate na sua cara logo nas telas. Esqueça o LCD. A parte frontal do Razr, que abriga dois recortes discretos para as câmeras, é tomada por um painel LTPO Extreme AMOLED de 4 polegadas (1272×1080). Com 165Hz e um pico absurdo de 3000 nits, blindado por Gorilla Glass Ceramic, você opera o celular inteiro por ali sem engasgo algum. Quando você abre o aparelho, a experiência vai para outro nível: uma tela principal de 6.96 polegadas, com resolução 1.5K, os mesmos 165Hz e um pico alucinante de 5000 nits com suporte a Dolby Vision. Chegamos num estágio da indústria em que testar precisão de cor e nível de preto virou preciosismo. O display é responsivo, saturado e magnífico, colocando a Motorola dividindo a mesma prateleira de figurões como Samsung, Apple e Google.
Em termos de acabamento, a marca continua sabendo brincar. Você pode escolher entre uma versão Orient Blue com traseira em Alcantara ou um acabamento texturizado imitando madeira na cor Cocoa. Testamos essa segunda e é bom demais segurar um flagship que banca essas estéticas menos óbvias, contando ainda com certificação IP48.
A fotografia tomou um banho de loja e abandonou o excesso de sensores inúteis. O conjunto duplo foca no que importa. A principal é uma wide de 50 MP (f/1.8) equipada com a badalada tecnologia LOFIC (Lateral Overflow Integration Capacitor). Sem querer dar uma de professor de física com papo de “pixel bins”, o que esse componente faz é basicamente segurar a onda da superexposição. Sabe quando os destaques de luz ficam totalmente estourados e brancos na foto? O LOFIC mata isso. A diferença no alcance dinâmico é gritante, entregando um contraste dramático entre luz e sombra que rende medalha de ouro nas situações de luz mais complicadas. Ao lado dela, temos uma ultrawide de 50 MP (f/2.0) com campo de visão de 122 graus. É ótimo terem mantido essa lente no lugar de uma teleobjetiva de qualidade duvidosa, mas a falta de estabilização óptica aqui é um gargalo, exigindo mão firme para não borrar as imagens. Ainda assim, para o uso no mundo real, esse sistema de câmeras tira de letra o que a esmagadora maioria das pessoas precisa.
