Entre Mundos Paralelos e Poderes Psíquicos: O Ápice da Fantasia e a Celebração de Mob Psycho 100

Entre Mundos Paralelos e Poderes Psíquicos: O Ápice da Fantasia e a Celebração de Mob Psycho 100

O gênero isekai virou quase um rito de passagem para os fãs de anime nos últimos anos. A premissa do protagonista que vai parar num mundo paralelo de forma abrupta já se estabeleceu na cultura pop, mas a verdade é que essa categoria — cujo nome literalmente significa “mundo diferente” em japonês — continua entregando universos absurdamente cativantes. A mistura de fantasia, elementos de RPG, comédia escrachada e até dramas bélicos densos cria um prato cheio para quem quer fugir um pouco da rotina. Se você quer entender o fascínio por trás dessa fórmula ou só precisa de algo novo para maratonar, existe uma leva de obras obrigatórias que definem o que é ser transportado para outra realidade.

Pega o caso de Overlord, por exemplo. Aqui a gente acompanha Momonga, um jogador tão dedicado a um MMORPG que acaba preso no servidor quando o jogo é definitivamente desligado. A sacada é que ele não é o herói da história: ele assume a pele do seu avatar roubadíssimo, Ainz Ooal Gown, entregando uma narrativa com uma pegada bem mais vilanesca e uma construção de mundo impecável enquanto procura por outros jogadores perdidos. Numa vibe quase diametralmente oposta, That Time I Got Reincarnated as a Slime pega o pacato Satoru Mikami e, após sua morte, o joga na pele da criatura mais inútil dos mundos de fantasia: um slime. A graça está em vê-lo acumular habilidades apelonas e construir uma nação inteira do zero, num tom super leve que ainda assim sabe entregar cenas de ação de cair o queixo.

Se a ideia é rir do próprio formato, KonoSuba: God’s Blessing on This Wonderful World! é a paródia definitiva do gênero. Kazuma Satou tem uma morte completamente patética e é arrastado para um mundo mágico com a missão de derrotar um Rei Demônio. O problema é a sua “party” disfuncional ao extremo: a deusa inútil Aqua, a maga Megumin que é viciada em uma única magia de explosão, e a cavaleira masoquista Darkness. Agora, se você quer algo denso e tenso, Saga of Tanya the Evil coloca um assalariado ateu reencarnado como uma garotinha impiedosa no meio de uma guerra mágica, lutando para subir na hierarquia militar após comprar briga com uma entidade que diz ser Deus. Fugindo um pouco da fórmula comercial moderna, vale demais mergulhar em The Twelve Kingdoms, um clássico absoluto onde a estudante Yoko Nakajima é jogada num universo de intrigas políticas profundas e descobre ser a governante de um reino, entregando um épico muito mais complexo do que as aventuras padrão.

Essa lista de mundos alternativos consegue ir ainda mais longe. Log Horizon brilha ao focar na macroeconomia e na sociologia de milhares de jogadores tentando sobreviver num mundo de jogo após uma atualização bizarra, guiados pelo brilhante estrategista Shiroe. Já Mushoku Tensei: Jobless Reincarnation eleva a barra do desenvolvimento de personagens ao mostrar a segunda chance de um homem sem propósito, agora vivendo como Rudeus Greyrat, lidando com traumas reais enquanto aprende magia e combate do zero. Correndo por fora com uma premissa genial, Isekai Ojisan subverte tudo ao focar num tiozão que acorda de um coma de 17 anos na vida real, apenas para revelar ao sobrinho que passou esse tempo todo vivendo glórias e atrocidades numa dimensão mágica.

É muito curioso notar como o isekai se apoia quase inteiramente na fantasia de escapar da mediocridade para viver o extraordinário. Mas a ironia bate forte quando lembramos que uma das maiores obras-primas da animação japonesa recente aborda o poder sobrenatural pela contramão. Enquanto meia dúzia de otakus sonha em disparar magias num mundo de elfos, Kageyama Shigeo, o protagonista de Mob Psycho 100, só queria ser um moleque normal. E é justamente celebrando o mundano em meio ao caos de espíritos e falsos videntes que a franquia atinge agora um marco histórico.

Este ano marca a comemoração de 10 anos desde que o primeiro episódio da aclamada adaptação de Mob Psycho 100 foi ao ar, e a Warner Bros. Japan já engatilhou uma série de iniciativas pesadas para a data. A cereja do bolo é um evento presencial marcado para o dia 12 de julho — a data exata da estreia do anime lá em 2016 — no Fukagawa Mirai Hall, em Kawaguchi, Saitama. O evento vai contar com o elenco principal de dublagem e uma apresentação do MOB CHOIR. Para quem acompanha de longe, os perfis oficiais já soltaram uma arte comemorativa desenhada pelo designer de personagens Yoshimichi Kameda, acompanhada de uma ilustração exclusiva do ONE, o mangaká criador da série.

A comunidade também está sendo chamada para o front: uma campanha global no X (o finado Twitter) está usando a hashtag #MyMobPsycho100 para que os fãs compartilhem suas cenas favoritas, com a promessa de que essas mensagens sejam integradas nas atividades do aniversário. Olhando para trás, é inegável o impacto que as três temporadas entregues pelo estúdio BONES tiveram na indústria até a sua conclusão no fim de 2022. Sob a direção de Yuzuru Tachikawa e, posteriormente, de Takahiro Hasui, a saga do garoto que suprime suas emoções para não explodir o ambiente ao redor quando atinge 100% de estresse transcendeu a ação desenfreada. No fim das contas, seja tentando dominar um MMORPG em outra dimensão ou apenas tentando sobreviver à montanha-russa da adolescência lidando com a própria mente, o anime continua sendo a mídia perfeita para traduzir o peso de nossas próprias escolhas.

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